quinta-feira, dezembro 23, 2021

LIÇÃO DE PRIMEIRO MUNDO COM CARLOS BRICKMANN


 



O deputado inglês Chris Huhne foi flagrado pelo radar em velocidade não permitida. Para não perder a carta de habilitação, pediu à esposa Vicky Price que assumisse a culpa. Mais tarde, foi nomeado ministro. Só que o casamento acabou, Vicky Price revelou a história, Chris Huhne se demitiu do Ministério e renunciou ao Parlamento. Acontece que na Inglaterra é crime mentir à Justiça (aqui também, mas lá é levado a sério). Processo contra os dois, ambos condenados a oito meses de prisão e à multa de 120 mil libras.

Segredo de Justiça? Não, processo público, normal. Segurança nacional? Não, infrator é infrator, ocupe ou não algum posto importante. Como reagiu o Governo à condenação de seu ministro? O então primeiro-ministro David Cameron não botou a culpa na “mídia tendenciosa” ou algo parecido. O que disse: “é bom que todos saibam que ninguém, por maior e mais poderoso que seja, está fora do alcance dos braços da lei”. A propósito, descobriu-se que Vicky Price, quando decidiu contar a história, conversou primeiro com uma vizinha, a juíza Constance Briscoe, que a orientou na divulgação da notícia de maneira a facilitar a intervenção do Judiciário. Como lá é a Inglaterra, os juízes não podem fazer essas coisas. A juíza foi processada, condenada a 16 meses de prisão e, ao ser condenada, automaticamente perdeu o cargo no Poder Judiciário. É inimaginável que alguém se mantenha como juiz depois de condenado. E jamais se pensaria em elegê-la para algum posto político.

Esses países de Primeiro Mundo são muito estranhos.

De lá para cá

O excesso de velocidade de Chris Huhnes ocorreu em 2003. A denúncia foi feita por Vicky Price em 2011, quando ele a deixou. Prescrição? Nada disso. Ela confessou sua participação, fez a delação, mas não foi premiada: era crime, foi processada e condenada também. Descoberto o papel da juíza Constance Briscoe, em poucos meses estava julgada, condenada e demitida do cargo. E a história foi encontrada por este colunista no excelente blog do jornalista Gerson Guelmann (https://gersonguelmann.com.br/blog), que a publicou originalmente em 8 de janeiro de 2018.

Onde está o dinheiro

Talvez aconteça algum milagre, pode ser; mas, até o momento em que encerrávamos esta coluna, o nosso dinheiro estava sendo velozmente saindo pelo ralo (ou entrando pelo ralo, depende do ponto de vista). Falta dinheiro para combater a fome, para ajudar as famílias que já não tinham quase nada e ainda foram prejudicadas pelo declínio da economia, para dar fôlego aos empresários sufocados pelos impostos, juros, multas e correções monetárias?

Pois nem tudo é mau: o Congresso já aprovou em todas as comissões uma quantia galáctica para a campanha eleitoral, R$ 4,9 bilhões; uma abundância ainda maior para as “emendas de relator”, o tal “orçamento secreto” de R$ 16,5 bilhões, que tem o poder mágico de fazer com que parlamentares que falam duro contra o Governo acabem votando de acordo com o Governo; e mais um dinheirinho para dar aumento, ao que se diz, a uma única categoria, os policiais, R$ 1,7 bilhão. A coisa ficou tão escandalosa que até o “superministro” da Economia, Paulo Guedes, que já havia tomado posição contra o tamanho das despesas extraordinárias, percebeu que não havia como segurar a avalanche. Assinou a proposta orçamentária e tirou férias, para que ninguém encha seu saco enquanto ele puxa o do presidente.

A verba eleitoral é mais do que o dobro da gasta nas eleições de 2018, já atualizada pela inflação. O senador Marcelo Castro, MDB do Piauí, foi o único a criticar a derrama de dinheiro público. Mas quem criticaria o butim de Natal de parlamentares e do Governo Federal? Boas Festas!!!

Só no Brasil

O Orçamento é o principal instrumento de trabalho do Governo e do superministro da Economia. Pois o Posto Ipiranga tirou férias. Veja sua desculpa: diz que o ministro já apresentou sua proposta e cabe ao Congresso decidir o que deseja. Claro que todos estamos carecas de saber direitinho o que o Congresso deseja. Se o Imposto Ipiranga não sabe, não adiantou nada ter feito Economia na Universidade de Chicago, tendo Milton Friedman como professor. Se não descobriu que campanha eleitoral com esse custo é um desatino, para que o Poço Ipiranga leu Keynes três vezes, em inglês?

Só em Brasília

A primeira versão do financiamento de campanha multiplicado foi vetada pelo presidente Bolsonaro – ele, sem dúvida, tinha toda a razão: se falta verba para tirar famílias da fome, não se pode gastar dinheiro para acusar o rival de ser mais ladrão do que os aliados. Mas, enquanto vetava o inacreditável aumento de verbas de campanha, Bolsonaro autorizava discretamente seus seguidores a derrubar o veto. Aproveitaram a oportunidade: derrubaram por ampla maioria os vetos que os incomodavam. Na Câmara, por 317 a 146; no Senado, por 53 a 21.

E, por favor, não incomodem Bolsonaro nessa época, em que ele se prepara para férias à beira-mar.

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segunda-feira, dezembro 20, 2021

NADA MAIS QUE A VERDADE COM CARLOS BRICKMANN


 


Sempre os outros é que são ladrões. Já a turma de quem fala dos outros é sempre honestíssima, aguardará tranquilamente que a Justiça comprove que as acusações contra ela são apenas armações. E, enquanto aguarda com plena confiança e serenidade que a Justiça se manifeste, toma providências para adiar os julgamentos e descobrir falhas processuais que anulem os processos.

Boa parte dos políticos mente muito. Mas o pior aparece, quase sempre, quando falam a verdade. O general Augusto Heleno disse que precisa tomar calmante na veia para conversar com o presidente Bolsonaro e evitar que ele reaja como gostaria às decisões do Supremo. Já o presidente, em conversa com empresários da Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, disse que foi informado de que o Iphan, após constatar que o local era um sítio arqueológico, tinha paralisado a construção de mais uma loja Havan, de um amigo e seguidor, Luciano Hang – aquele careca que, segundo o escritor Olavo de Carvalho, anda vestido de Zé Carioca. Como não sabia o que era o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), perguntou a um ministro do que se tratava. Completou: “Tinham mandado paralisar a obra porque acharam um azulejo. Ripei todo mundo do Iphan”. Onde já se viu desagradar um empresário amigo da casa só para fazer o que é certo?

Os empresários o aplaudiram. Este colunista tem uma dúvida: em outros tempos, não se diria que o general e o presidente fizeram uma confissão?

As duas verdades

Fernando Bezerra, líder do Governo no Senado, estava tão feliz por ter obtido o apoio de Bolsonaro à sua candidatura ao Tribunal de Contas da União que até acreditou nele. Tirou o terceiro lugar, muito abaixo de Kátia Abreu e do vencedor, Antonio Anastasia, do PSD de Gilberto Kassab. E, ao descobrir que tinha sido traído pelo chefe, deixou a liderança do Governo. Bolsonaro se irritou: disse que Bezerra “já ia tarde” e que, por causa dos problemas do senador em Pernambuco, teve de intervir na Polícia Federal do Estado.

Pois é: a declaração de Bolsonaro também tem cara de confissão.

Cadê o nosso?

Governistas, oposicionistas, lavajatistas, evangélicos, esquerdistas, todos unidos e coesos: juntaram-se para multiplicar as verbas públicas destinadas à campanha eleitoral. Nas últimas (e já milionárias) eleições, as excelências tinham devorado R$ 1,8 bilhão. Agora, poderão gastar até R$ 5,7 bilhões. A coisa era tão escandalosa que o presidente Bolsonaro havia vetado a quantia monumental. Mas o veto foi derrubado na sexta, dia em que o Congresso nem costuma funcionar – mas dessa vez era para legislar em causa própria. A quantia exata não deve chegar aos R$ 5,7 bilhões, mas ficar perto de uns quatro bilhões, quatro bilhões e meio – assim, todos poderão dizer que não foram com tanta sede ao pote. Mas, gastando desse jeito, com a economia do país sem crescimento real, acaba sendo necessário furar o teto de gastos para conseguir R$ 400,00 de auxílio para famílias que estão à beira da fome.

E o veto?

Bolsonaro tinha vetado o absurdo. Mas não deve estar triste com a queda do veto: quem articulou a votação foram três partidos de sua base, aquele ao qual pertence (o PL, de Valdemar Costa Neto), o PP, maior dos partidos que o apoiam, e o Republicanos, ligado a movimentos evangélicos, em especial a Igreja Universal do Reino de Deus. Marcelo Crivella, que Bolsonaro tentou sem êxito nomear embaixador na África do Sul, pertence ao Republicanos. O presidente não fez qualquer articulação para que o seu veto fosse mantido.

O predestinado

O ministro André Mendonça, que acaba de tomar posse como ministro do Supremo Tribunal Federal, disse numa das igrejas do pastor Silas Malafaia que Deus o escolheu para o STF desde antes da criação do mundo.

Por falar nele

A propósito do pastor Silas Malafaia, será que ele já seguiu o conselho oferecido publicamente pelo jornalista Ricardo Boechat, na BandNews FM?

O conselho que ficou famoso de Ricardo Boechat a Malafaia está no link https://www.youtube.com/watch?v=IP0CLLJIe9o

Lula de lavada?

As últimas pesquisas mostram Lula ganhando no primeiro turno, com mais votos do que todos os adversários somados. Mostram que Moro incomoda Bolsonaro, tirando-lhe votos, porém não o suficiente para afastá-lo de um eventual segundo turno. Mas é cedo: como diz Gilberto Kassab, fino analista político, a preocupação com as eleições começa depois do Carnaval. Lula leva uma vantagem: tudo o que se podia dizer dele já foi dito. E, embora o fato real seja que ele não foi inocentado das acusações, tanto que algum dia os processos deverão recomeçar, a imagem que fica para a população é de que Lula é inocente, vítima de perseguição política, tanto que o Supremo mandou anular os processos.

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