terça-feira, agosto 30, 2022

Pelejas Nacionais e a Palma de Nossas Mãos com Marli Gonçalves


 



Foi aberta a temporada oficial das pelejas eleitorais, e ainda além das nossas muitas pelejas do dia a dia. Agora não adianta nem tentar fugir porque elas entrarão por todos os canais, os da tevê aberta, de comunicação, nas redes sociais e os de nossos sentidos. Vamos esbarrar nelas, mesmo tentando delas se esquivar.

Está no ar. Vão nos aborrecer, fazer torcer por alguns, ajudar-nos a escolher, e inclusive até nos divertir muito porque lá vem aquele desfile de gente muito estranha, com nomes e até codinomes, apelidos, anexados como patentes, religião e profissões, propostas absurdas e algumas ideias escalafobéticas.

Parece simples, mas não é bem assim. No próximo dia 2 de outubro, primeiro turno que - tomara - seja o único, para acabar logo com essa aflição toda, teremos cinco decisões a tomar, cinco vezes para ouvir o tilintar da urna: eleger presidente (a), governador(a), senador(a), deputado (a) estadual e deputado(a) federal. As coisas andam tão polarizadas que até é possível que apenas a partir de agora muita gente se dê conta de prestar mais atenção, mesmo nas fugidias imagens de segundos de alguns dos que pretendem conquistar nossos votos, e nem eles mesmos sabem bem o que estão fazendo ali, na sopa de letrinhas dos partidos, federações, cotas, uniões e acordos.

É preciso entender que todo o processo eleitoral é importante, complexo, que não adianta achar que escolhendo só o presidente poderemos mudar alguma coisa, porque o buraco é bem mais embaixo, ou melhor, lá em cima. São interdependentes. São quadrados que precisam ser bem preenchidos. Com consciência nacional, e que ainda parece que não aprendemos, pela falta de cultura política.

Ficamos aqui de fora assistindo os debates, confrontos, o cara a cara, as entrevistas, torcendo para que um massacre o outro, mas não é jogo de futebol. Temos de escalar um time completo, mas para entrar em campo a partir do ano que vem, com condições de enfrentar a perigosa situação e momento que nos encontramos, poucas vezes vista tão desorganizada em todos os campos, tanto éticos, como sociais, ambientais, econômicos.

O Brasil precisa tomar consciência do tamanho dessa responsabilidade que até aqui parece esquecida, como se tal peleja fosse apenas entre duas pessoas. São muitas. É necessário que a representação de cada um de nós se espalhe pelas casas legislativas, hoje tomadas pelo que há de pior, que veio de carona no mesmo barco do ser que nos atormenta nos últimos quatro anos, trazendo para o poder o ódio e um grande número de elementos execráveis, vergonhosos, perigosos, incluindo a própria família.

Quando escolhemos o presidente ou o governador de nossos Estados para os cargos executivos essa alavanca já começa a ser acionada.

As pelejas nacionais já vêm se dando de forma assustadora não é de hoje, e entre todos os Poderes, especialmente envolvendo o Judiciário, obrigatoriamente acionado para coibir abusos, dar sequência à lei e à ordem, como guardião da Constituição, juiz das partidas. Também aqui colhemos muitas dúvidas, abusos, interpretações que dão espaço a intermináveis discussões se um está ou não invadindo a seara de outro nesse momento delicado, se há abusos contra a liberdade de expressão de golpistas ou censura prévia a condições, planos, pensamentos e financiamento de atitudes que até já vivemos e perigos que apagaram a luz do país por longos e tenebrosos 21 anos.

Pelejas são complexas, árduas, cansativas. Mas típicas da democracia, a palavrinha que temos de defender acima de tudo. Na expressão popular há a expressão cobertor peleja, aquele que não é completo – ora deixa os pés descobertos, ora a cabeça. É aquele cobertor de tecido grosseiro, em geral doados, e que aqui em São Paulo vemos diariamente sendo largados ou arrastados nas ruas por necessitados sem teto ou pelos viciados da Cracolândia, inclusive alguns dos muitos problemas que esperam soluções enquanto as tais autoridades que escolhemos pelejam entre si.

Vamos tentar decidir melhor quem serão esses contendores. Está em nossas mãos as letras que escolheremos. No dia da eleição, levemos na palma delas o poder e a decisão. E já que a moda parece que está lançada, para agilizar as mudanças, a cola escrita com os números dos candidatos bem escolhidos.

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foto marli julho 22 MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

quinta-feira, agosto 25, 2022

O caminho das pedras com Carlos Brickmann


 

A determinação do ministro Alexandre de Moraes, de investir contra oito empresários bolsonaristas de porte, parece estranha: por mais golpistas que sejam suas opiniões, eram divulgadas entre amigos, num app particular, de conversa, sem sinal de articulações externas, exprimindo pensamentos, não ações. É uma conversa entre amigos, só que por escrito. Por que uma reação tão dura do ministro? Será legal invadir uma conversa particular e utilizar o aparato de força à disposição da Justiça contra quem apenas dá sua opinião? A este colunista parece censura. Mas este colunista nada entende de Direito.

Há, apesar das aparências, duas coisas pouco habituais. A primeira é que a conversa entre os empresários não era assim tão privada, tanto que vazou para um dos colunistas mais importantes do país, Guilherme Amado, do Metrópoles, de Brasília, que alcança ampla (e merecida) repercussão. Quando Amado divulgou alguns posts, mais de 50 empresários deixaram o grupo. Um empresário dos que sobraram defendia o uso da mentira em favor de Bolsonaro, pois estava em guerra contra o eventual retorno de Lula e PT.

A segunda é que Alexandre de Moraes não ordenaria busca e apreensão sem ouvir um amigo ponderadíssimo, o ex-presidente Michel Temer. Não é difícil supor que, tendo as mensagens vazado, Moraes aproveitou a chance para verificar se os oito empresários não estão por trás do financiamento das fake news, ou até articulando ativistas dispostos a tudo para dar o golpe.

A lista dos atingidos

Os empresários submetidos à busca e apreensão são José Isaac Peres, da rede Multiplan de shopping centers; André Tissot, grupo Sierra; Luciano Hang, Havan; Meyer Nigri, Tecnisa; Marco Aurélio “Morongo” Raimundo, Mormaii; Ivan Wrobel, Construtora W3; José Koury, Barra World Shopping; e Afrânio Barreira, do Grupo Coco Bambu. Todos têm condições para reagir à medida e, caso a comprovem ilegal, de criar problemas para Moraes.

Vai negar

Se o caro leitor confia 100% em Bolsonaro, deve pular para a nota abaixo, em vez de se irritar. Mas é verdade: no início de semana, Bolsonaro contratou um marqueteiro, cujo nome ainda não foi possível apurar, numa tentativa de buscar as intenções de voto que o separam de Lula. Se o presidente tomar conhecimento desta nota, irá desmenti-la. O marqueteiro era reivindicação antiga de Flávio, o filho mais velho de Bolsonaro e o mais enfronhado na política.

A ideia até agora era vetada por Carlos, o filho 02, que confia mais em suas ideias de desconstrução da imagem dos adversários. Não foi possível apurar se Carluxo concordou com a contratação (desde que não interfira no seu trabalho) ou se foi vencido. Se foi vencido, logo reclamará em público.

Falou e disse 1

O presidente Bolsonaro já disse publicamente, em 25 de abril de 2019, que o Brasil “não poderia ser um país do mundo gay, de turismo gay, pois temos famílias”. Complementou: “Quem quiser vir ao Brasil fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”.

Falou e disse 2

Lula preferiu um comício: “Mão de homem não foi feita para bater em mulher. Quer bater em mulher, vai bater em outro lugar, mas não dentro de sua casa ou no Brasil, porque nós não podemos aceitar mais isso”.

Falava e dizia

Lembra de Sebá, codinome Pierre, último exilado ainda na Europa depois da anistia? Sebá, de Paris, telefonava para sua mulher Madalena, que lhe contava as últimas novidades – inclusive a inflação galopante, que a impedia de comprar a passagem de volta. Imagine Sebá, hoje, sendo informado de que Alckmin é vice na chapa de Lula e circula com bonezinho do MST. Ou de que o responsável pela Infraestrutura no Governo Dilma, Tarcísio de Freitas, é o candidato do presidente Bolsonaro a governador de São Paulo. Nem Tarcísio deve ter acreditado, mas pegou um bom mapa e descobriu que no Brasil há um Estado com esse nome.

Temos também um caso bom no Paraná. Lá, o ex-juiz Sérgio Moro, que foi ministro de Bolsonaro e saiu atirando, que é tratado como traidor pelo presidente, tenta voltar ao velho e confortável abrigo: diz que ele e Bolsonaro “têm o mesmo adversário”.

Como diria Sebá, “Qu’est-ce que c’est, Madalena? Não quer que eu volte, arrumou outro? Seja franca, amancebou-se?”

Tela quente

Nesta semana, entrevistas no Jornal Nacional com os candidatos à Presidência. Na quinta, Lula; na sexta, Simone. No domingo, debate, o primeiro da campanha, organizado por UOL, Folha de S.Paulo, Rede Cultura e Rede Bandeirantes, às nove da noite. Pela primeira vez, se ninguém fugir da raia, Bolsonaro e Lula se defrontarão. Nas pesquisas do início da semana, da FSB/BTG, Lula lidera com 45% - o mesmo índice anterior. Bolsonaro subiu 2 pontos, ainda na margem de erro, e tem 36. Ciro caiu de 8 para 6%.

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